
Frequentemente tomamos como certo que a infidelidade dói e é um ato decepcionante e doloroso de atravessar, e à medida que se percorre esse processo, a dor se acentua ainda mais. Longe de diminuir, parece que veio para ficar.
Embora possa ser entendida como uma infração relacional, a própria etimologia da palavra já o anuncia: in, falta; fidelidade: falta de fidelidade. Acostumou-se a difundi-la como algo comum entre os casais, e isso acabou contribuindo para sua naturalização.
É curioso que quem comete uma infidelidade raramente encontre argumentos sólidos para explicar sua razão de ser. Paradoxalmente, uma ação que rompe acordos morais e de convivência amorosa pede humanização, alegando ter direito a sentir desejos, necessidades, contrariedades ou ter sido levado por uma falta de algo.
Quem é infiel, ou já foi, muitas vezes não tem a preparação emocional, crítica nem espiritual para assumir tal ato. Isso revela uma contradição profunda e gera a disjuntiva de que quem a expõe é moralista, e quem a omite, está alienado.
Então, dito isso: por que dói tanto? Por que algumas pessoas demoram anos para superá-la, entram em depressão ou até tiram a própria vida depois de passar por isso?
Então, por que a infidelidade dói tanto?
Porque é um luto. Literalmente, um luto.
Não se mata apenas a confiança, os códigos ou o respeito.
Morre a pessoa que se ama. Morreu a pessoa que você amava.
Por isso a dor é insuportável e se parece com o vazio de uma grande perda. Como quando morrem os pais, um irmão ou o melhor amigo.
E nos casos em que há recomeços por meio do perdão, muitas vezes essa tentativa é como o desejo de quem sente saudade: poder, por cinco minutos, abraçar seus mortos.
Poder trazer de volta aquela pessoa que, antes de saber que era infiel, você amava.
Perdoar a infidelidade é um ato de grande amor, porém, tem os dias contados.
Talvez o grande problema dessa questão seja o fato de não ter aceitação social. Acontece que a morte, mesmo sendo natural, também não tem.
Respostas de 2
Excelente artigo e para reflexionar
Obrigada, Arí pelo seu feedback. Fico feliz que tenha sido reflexivo pra você. Queria aproveitar para convidá-lo a participar na seção “Me conte sua história”.
Estou recadando vivências para meus futuros escritos. Você pode estar dentro da literatura. Um abraço.