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Quando eu fiz aquilo que não quero que aconteça

Mochila de pano sobre piano em shopping. Representa uma lição sobre como o preconceito não é tão ruim quanto parece.
Uma mochila de pano com alças de cordão repousa sobre um piano preto em um shopping center. O fundo está desfocado e mostra pessoas passando.

Estava caminhando por um shopping, depois de meses sem sair de casa. Precisava fazer algumas compras e acabei ficando por lá um bom tempo. Foi nesse momento que percebi algo importante: Eu fiz aquilo que não quero que aconteça.

Carregada de sacolas, entrei numa loja onde a vendedora comentou:

—Acho que vai ter evento hoje… Escuta essa música. Parece de profissional. Dá pra notar que é alguém que entende.

—Aham —respondi, sem dar muita importância.

Lembro que, alguns minutos antes de entrar na loja, vi um homem sentado num banco. Ao lado dele, uma mochila de pano, uma jaqueta de couro apertada, parecia um número menor, um jeans e um tênis branco da Fila. Ele segurava um sorvete em casquinha e tomava com prazer. Sua solidão me chamou a atenção e, não sei bem por quê, me causou certa pena.

Quando finalizei a compra e saí, vi que aquele piano, de onde saía uma versão impecável de Mozart, era dominado por aquele mesmo senhor. De imediato, lembrei de um caso nos Estados Unidos, do incrível pianista Donald Gould, que há um tempo, me comoveu.

Senti uma culpa, misturada com vergonha de mim mesma, me invadir. E, em respeito à arte dele, me sentei para escutar de verdade: para aproveitar o que ele estava me oferecendo.

Seus dedos dançavam, os ombros se elevavam e algo no peito parecia puxá-lo para trás.


Pensei: ele está interpretando a melodia com o corpo inteiro. É isso que os artistas fazem.

Então percebi que o que me surpreendeu foi justamente vê-lo ali no piano. Porque não o associei àquele instrumento, àquela música, pela aparência: a roupa, o sorvete, a mochila de pano.

Eu o julguei. Do mesmo jeito que às vezes temo ser julgada. Quando estou em outro trabalho, quando não estou escrevendo nem publicando, ou descabelada no mercado, parece que as pessoas não enxergassem a escritora que existe em mim.

Confesso que aquilo me tocou profundamente. Foi como se um espelho tivesse se colocado na minha frente e dissesse: é isso que você teme…calma! você sempre será o que buscou ser, mesmo que os outros não vejam.
Talvez ainda não saibam disso, mas quando souberem, vão te valorizar do mesmo jeito que você valorizou o pianista.

Pode parecer clichê dizer que até ouvi uma voz me falando. Mas pode pensar o que quiser: eu ouvi. E aquilo me ensinou algo.

O pre conceito nem sempre é tão ruim

Pode parecer contraditório que, depois de escrever tudo isso, eu ainda diga que o preconceito nem sempre é tão ruim. Mas às vezes é necessário.

Etimologicamente, “preconceito” vem da junção de “pré”, que significa “antes”, e “conceito”, que é uma ideia formada sobre algo. Ou seja, é interpretar ou julgar algo antes mesmo de conhecer.

Ao contrário de casos como o que contei, em que o julgamento se mostrou injusto, saber antecipar uma opinião ou leitura sobre alguém nos ajuda a tomar decisões.
E fazemos isso o tempo todo. Já percebeu?

Por exemplo: quando sentimos uma necessidade, como beber água, descansar ou ir ao banheiro, avaliamos se é o momento certo, se dá tempo, se vale a pena agora ou depois. É aí a decisão.

Quando observamos o comportamento de alguém que nos atrai, mas notamos que bebe demais, fala só de si ou não é gentil, automaticamente concluímos que essa pessoa talvez não combine conosco. Estamos tomando uma decisão baseada em valores.

São situações diferentes? Sim. No entanto o que quero dizer é que julgar antes não é sempre algo negativo ou moralmente errado. Às vezes, é apenas uma forma de proteção e escolha.

O homem do piano me ensinou isso.
Observar o comportamento de alguém antes de se envolver pode nos ajudar a escolher com mais clareza aquilo que está em sintonia com quem somos.

Obrigada por ler. Se você passou por experiência similar, pode contar nos comentários, e se houver uma vivencia maior, vá lá em ME CONTE SUA HISTÓRIA e faça dela um capítulo.

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