Tenho um monte de cartas que a Bianca, minha filha, me escreveu de criança…um monte mesmo, e só foi agora que descobri um detalhe, que na hora que a gente as viu junto, achamos engraçado porque todas ou muitas delas diziam frases do tipo “Eu te amo, mãe, perdão se te faço chatear” ‘mãe, você é o melhor que me aconteceu na vida, perdão por te fazer resmungar” e por aí vai.
Ainda eu falei na brincadeira como ela era ruinzinha comigo, e como ao mesmo tempo se arrependia e demos risadas e cobrava isso pra ela e ficou divertido.
Só que, num momento determinado, algo do nada em mim, começou a me fazer um barulhinho. Ela não era, nem é ainda, uma menina inquieta ou desobediente, pelo contrário; sempre tem sido igual de amorosa, educada, calma, obediente como um soldado, então não entendi, voltando para traz, porque ela sempre fazia questão de pedir perdão desse jeito.
Porque justamente ao ela não ser assim, nunca me dava motivos para resmunga-la. Eu era carinhosa também, e foi por isso que tentei voltar para o período que as cartas foram escritas. E descobri o seguinte: Na época das cartas e bilhetes, foi a fase que eu tive meus únicos dois relacionamentos, onde ela tinha entre uns 5 e 9 anos de idade. Sim, bem ali.
Então me dei conta que foram esses os tempos onde eu estive mais triste e principalmente magoada em toda a história da minha vida. Estava sempre tão triste, e embora acompanhada, sentia a maior da solidão. Foi quando militava em contra dos homens, quando repetia que nem papagaio, que eram todos iguais, e eu uma vitima social.
Eu passava o 60 por cento do dia pensativa em como eu poderia mudar algo, mas não podia. A Bianca, então, em seu corpezinho de menina e seu amor de grande mulher presa dentro da sua lama pura, entendia aquilo como algo pessoal; que mesmo ela me amando tanto, não era suficiente, e quando eu me expressava secamente, ou xingava por outras questões ínfimas, importantes ou banais, ela achava que era a culpada, a responsável de eu estar chateada, com cara fechada e muitas vezes de olhos molhados ou literalmente chorando sentada na beira de uma cama. Imaginem uma criança vendo você assim. Na sua cabeça não tem como entender que a causa é outra e não ela. Nossa!…quanto eu demorei em enxergar isso. Mais da metade da vida dela.
Eu não sou parecida com a minha mãe, posso jurar isso.
Sempre fui mais amorosa como a minha filha e se bati nas nádegas dela duas vezes em 22 anos, talvez esteja exagerando, mas estou falando isso porque neste exato momento estou lembrando do rosto da minha mãe, os gestos, os jeitos e as contestações que tinha, fazia e dava quando éramos crianças. E sim, sempre estava chateada, nervosa, as vezes agressiva e eventualmente a veia-se triste.
Não acho que eu estivesse repetindo o padrão através dela, eu acredito que é um padrão que se repete.
Por isso, sempre digo que, longe de romantizar esse amor maternal, que acaba sendo cliché muitas vezes, entendo que mais tarde ou mais cedo, a experiência de ter filhos, é para mostrar como filhos o que não pudemos ver dos nossos pais, e para aqueles que nunca serão pais, o aprendizagem fará o caminho mais longo, pois a observação terá desde o mesmo lugar: como filho.
Obrigada por ler. Se você passou por algo assim, me conte nos comentários. E, se quiser que sua história vire um capítulo dos meus livros, vá até a sessão